Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Que prêmio Nobel explicou a física quântica da radioatividade, postulou a versão moderna do Big Bang, propôs que as estrelas brilham por causa de reações termonucleares e descobriu o conceito do código genético? Nenhum. A pessoa existiu – chamava-se George Gamow -, mas não recebeu o prêmio. Nem o de física nem o de medicina.

Tampouco o recebeu Dimitri Mendeleyev, cuja tabela periódica decora as escolas de todo o mundo; nem Oswald Avery, que demonstrou que o DNA é a molécula portadora da informação genética; nem Lise Meitner, descobridora da fissão nuclear; nem Julius Lilienfeld, criador do transistor; nem George Zweig, codescobridor dos quarks. Esse é apenas o início de uma longa lista de ilustres nunca premiados com um Nobel de ciências.

E fora das ciências é ainda pior. O pacifista mais célebre do século 20, Mahatma Gandhi, não recebeu o Nobel da Paz, diferentemente de Henry Kissinger ou Yasser Arafat. E o de literatura teve de realmente afinar a pontaria para não cair em Leon Tolstói, Anton Chekov, Franz Kafka, Marcel Proust, James Joyce, Henry James, Vladimir Nabokov, Graham Greene ou Jorge Luis Borges, para citar só os mortos.

No entanto, o Nobel continua sendo o prêmio mais prestigioso que um intelectual deste planeta pode receber. E seu prestígio não se deve à tradição – por que teria o mundo que respeitar uma tradição sueca? -, mas a seu exaustivo mecanismo de seleção. Os prêmios que conhecemos nesta semana são o resultado de um ano de investigação sobre os candidatos.

A Real Academia Sueca de Ciências (que concede os prêmios de física, química e economia), o Instituto Karolinska (medicina), a Academia Sueca (literatura) e o Comitê Nobel Norueguês (paz) convidaram em outubro do ano passado – como fazem todos os outonos – 6 mil especialistas de todo o mundo para apresentar as nomeações (nunca de si próprios).

São cerca de mil especialistas por prêmio, entre eles os agraciados anteriormente em cada área, e o resultado costumam ser cem ou 200 indicações ao todo. Os seis comitês Nobel, um por prêmio, começaram a selecionar essas nomeações em fevereiro, e só acabaram há algumas semanas. Durante esse processo consultam muitos especialistas externos, e daí costumam vir os rumores sobre a identidade dos premiados, em geral escassos e pouco confiáveis.

Uma seleção desse tipo garante que todos os premiados merecem sê-lo – em ciência houve poucas concessões controvertidas -, mas não que todos os merecedores sejam premiados. Portanto, é lógico que a maioria das decisões polêmicas da academia o tenham sido sobretudo por ausência. Ou por atraso, que só difere da ausência na longevidade do candidato. Mas o certo é que cada caso é um mundo.

Uma categoria minoritária de não premiados são os que o físico britânico John Gribbin chama de “os visionários”. São “mais importantes que os prêmios Nobel”, segundo Gribbin. O paradigma é o próprio Gamow, citado no primeiro parágrafo. Sua influência na ciência é incalculável, embora também no sentido literal: não se pode calcular. São ideias, avistamentos, pautas. Seu alcance se deve a como estas influíram em outros cientistas, e o Nobel costuma ir para estes.

Gamow nasceu em Odessa quando fazia parte do Império Russo e estudou física em São Petersburgo quando se chamava Leningrado, mas trabalhou toda a sua vida em Göttingen, Copenhague, Cambridge e Boulder (Colorado, EUA). Em 1948 ele propôs com Ralph Alpher a teoria do Big Bang. Outros físicos haviam especulado antes com a ideia, mas foi o artigo de Alpher e Gamow que permitiu demonstrar o Big Bang 15 anos depois.

Como os nomes Alpher e Gamow parecem “alfa e gama”, Gamow não pôde resistir a buscar um beta para arredondar o artigo. Encontrou-o logo, em um dos grandes físicos teóricos do século 20, Hans Bethe, a quem convenceu a assinar o trabalho apesar de sua contribuição nula. O histórico artigo “A origem dos elementos químicos” saiu, portanto, assinado por Alpher, Bethe e Gamow, para satisfação deste último. Bethe pelo menos recebeu o Nobel, embora por outra coisa.

James Watson e Francis Crick descobriram a dupla hélice do DNA em 1953. Pouco depois de ter publicado a descoberta na revista “Nature”, receberam uma carta de Gamow, que não conheciam. O físico propunha ali o primeiro modelo de um código genético: uma linguagem que traduzia a ordem linear das letras do DNA – recém-descoberto pelos destinatários da carta – em outro tipo de sequência: a fileira de aminoácidos que constitui as proteínas. Seu modelo concreto era incorreto, mas o conceito de código genético foi capital.

Thomas Edison patenteou 1.093 invenções, entre elas o fonógrafo, o alto-falante e o microfone do telefone, as peças chaves do cinematógrafo, o primeiro gerador eficaz e um modelo de ferrovia elétrica. E a lâmpada, é claro. Enquanto isso, seu colega Nikola Tesla idealizava os dínamos de corrente alternada, a transmissão da energia elétrica e a bobina de indução, o que lhe permitiu adiantar-se a Marconi na patente do rádio. Edson e Tesla foram indicados para o Nobel em 1915, mas a academia os descartou por um motivo de peso: um não podia ver o outro. Marconi tinha recebido o prêmio seis anos antes.

Durante a primeira metade do século, os experimentos em aceleradores descobriram tantas partículas subatômicas que os físicos as chamavam de “zoológico”: prótons, nêutrons, rho, delta, sigma, xi, kaons, anti-kaons, píons, centenas de partículas elementares. Em 1964, Murray Gell-Mann e George Zweig perceberam que podiam explicá-las como combinações diferentes de apenas três partículas ainda mais elementares: os quarks. Gell-Mann, que foi quem lhes deu esse nome, foi o único que recebeu o prêmio Nobel. Zweig os havia chamado de “ases”.

A maior descoberta da biologia do século 20, a hélice dupla do DNA – a chave da herança genética -, não teria sido possível sem um dado anterior essencial: que o DNA é o material hereditário. Foi Oswald Avery quem o demonstrou em 1944, e contra todos os prognósticos porque quase todos os cientistas pensavam o contrário (e a maioria continuou pensando assim mesmo depois).

Um motivo pelo qual Avery não recebeu o prêmio foi um mistério durante 50 anos, o tempo que a comissão Nobel demora para publicar suas deliberações. Hoje se sabe que o químico sueco Einar Hammarsten bloqueou sua candidatura, e continuou a fazê-lo mesmo depois que Watson e Crick descobriram a dupla hélice em 1953. Hammarsten acreditava que a informação genética estivesse nas proteínas, e sua convicção era impermeável aos dados.

Barbara McClintock descobriu os transposons – genes que saltam de um lugar para outro do genoma – em 1948 com uma série impecável de experimentos no milho. Não só demonstrou sua existência, como também que costumam alterar a atividade dos genes, e percebeu que deviam ser muito importantes no desenvolvimento e na evolução. McClintock já era reconhecida então como uma das geneticistas mais brilhantes do mundo, mas seus resultados foram recebidos com ceticismo por muitos cientistas e ignorados por muitos outros.

O resultado foi que McClintock recebeu o Nobel, mas 35 anos depois, quando já estava com 81. Pelo menos pôde se vingar no jantar protocolar em Estocolmo, com estas palavras: “Devo admitir que no início me senti surpresa, e depois confusa. Ninguém me convidava para dar aulas ou seminários, nem para participar de comitês ou tribunais acadêmicos. Mas esse longo intervalo foi uma delícia. Deu-me uma completa liberdade para continuar pesquisando por puro prazer e sem interrupções”.

Einstein ganhou o prêmio Nobel em 1921 por sua explicação do efeito fotoelétrico, um dos artigos chaves que publicou em seu “annus mirabilis” de 1905. Isto implica que sua teoria da relatividade, um dos pilares da física atual, junto com a mecânica quântica, é outro dos grandes esquecidos da academia, embora seu autor não o seja. E desta vez o motivo tem algo de paradoxal.

Einstein formulou a relatividade, também em 1905, para responder à pergunta: o que aconteceria se uma pessoa corresse tão depressa que conseguisse alcançar uma onda de luz? A pessoa veria uma onda de luz imóvel, como parece imóvel um trem que se desloca paralelamente ao nosso. Mas a velocidade da luz é uma lei fundamental da natureza, e portanto não pode parecer imóvel a ninguém.

A solução de Einstein foi aceitar os fatos e deduzir suas consequências lógicas, por mais estranhas que parecessem. A velocidade não é mais que o espaço dividido pelo tempo. Se a velocidade da luz tem de ser constante, mesmo que uma pessoa corra tanto quanto ela, é que o tempo e o espaço não o podem ser. Essa teoria de 1905 chama-se relatividade especial, e uma de suas consequências diretas é a célebre equação E=mc2 [ao quadrado], que revelou que a massa (m) e a energia (E) são duas faces da mesma moeda, e que uma quantidade ínfima de massa pode se transformar em uma grande quantidade de energia ao se multiplicar pelo quadrado da velocidade da luz (c), que é um número enorme. É o fundamento da energia nuclear e da bomba atômica. E também do brilho das estrelas.

Einstein foi indicado por essa teoria várias vezes desde 1910, mas a academia preferiu esperar que os experimentos elucidassem as dúvidas. Isso ocorreu em 1915, mas então Einstein já havia desenvolvido a relatividade geral, a teoria da gravitação que corrigiu Newton. E esta era ainda mais chocante que a relatividade especial, por isso Estocolmo novamente recuou. Portanto, de certa forma, o físico foi vítima de seu próprio êxito. Mas esse é um assunto sobre o qual os cientistas só abrigam uma dúvida: se Einstein mereceu outros dois prêmios Nobel, ou se foram três.

Alfred Nobel, o inventor dos prêmios – e da dinamite -, deixou escrito em seu testamento que o prêmio de literatura seria concedido a escritores de “tendência idealista”. O comitê levou a frase à risca nos primeiros tempos, e a empunhou para recusar as candidaturas de Tolstói, Twain, Ibsen e Zola. Quando a norma foi relaxada, já estavam todos mortos.

Karel Capek, o grande escritor tcheco da primeira metade do século 20 – e introdutor da palavra “robô” -, provocou as dúvidas do comitê Nobel por suas obras antinazistas dos anos 1930. Os acadêmicos as consideravam demasiado insultantes para o governo alemão. De todo modo, quiseram dar uma oportunidade a Capek, de cujos méritos literários não duvidavam, e lhe pediram para apresentar uma obra menos polêmica. “Obrigado pela intenção”, respondeu Capek, “mas já escrevi minha tese de doutorado”. Ficou sem o prêmio, é claro.

O caso de 1974 em literatura é pouco representativo, mas ainda menos evitável. Vladimir Nabokov, Graham Greene e Saul Bellow foram rejeitados nesse ano para se conceder o prêmio a Eyvind Johnson (“Retorno a Ítaca”) e Harry Martinson (“Urtigas em Flor”), dois escritores muito conhecidos na Suécia, entre outras coisas por serem membros da Academia Sueca.

Não está claro quanto tempo o Nobel poderá resistir com seu esquema atual. Os matemáticos e os paleontólogos sempre se queixaram de que não haja um Nobel para suas disciplinas, mas a lista de agraciados poderá crescer logo para limites insuportáveis. Porque também não há um Nobel de computação, nem de novos materiais, nem de nanotecnologia, nem de climatologia. Nem de cinema, que poderiam ter dado a Ingmar Bergman sem cair no ridículo.